Filhos01/06/2012 | 18h35

"Criação com apego" é nome novo para forma antiga de cuidar da família

Conceito diz que pais devem ser mais presentes na vida dos filhos durante crescimento

Enviar para um amigo
"Criação com apego" é nome novo para forma antiga de cuidar da família Alvarélio Kurossu/Agencia RBS
Débora Rosseto e seus filhos, Bento e Alice Foto: Alvarélio Kurossu / Agencia RBS

As mulheres elegeram suas prioridades. Primeiro, estudos, realização profissional e estabilidade financeira. Depois, formação da família e criação dos filhos. A gravidez planejada é festejada e curtida. Seis meses após o nascimento do bebê, quando acaba a licença-maternidade, entretanto, a mãe deve voltar ao trabalho.

Já bem antes disso, ela começa a oferecer outros alimentos à criança, que precisa se acostumar a ficar longe do peito. Sem outra opção, ela escolhe uma creche para deixar o filho, ou delega os cuidados para uma babá ou parente. Não sem alguma dose de culpa e frustração, passa os dias tentando equilibrar os papéis que a vida lhe impõe.

Na contramão desse cenário, surgiu nos Estados Unidos, há mais de duas décadas, um movimento que defende outro modelo de criação dos filhos, especialmente enquanto são pequenos: attachment parenting, ou "criação com apego", em tradução livre. Ganhou nome e força com o pediatra americano William Sears, autor do livro The Baby Book (inédito no Brasil), que traz os sete princípios que devem ser seguidos para a "criação de filhos felizes, saudáveis e de bom caráter", segundo a publicação. Entre eles, amamentar sempre que o bebê pedir e sem idade limite para o desmame, e levá-lo para dormir na cama dos pais. São os dois pontos mais polêmicos, que geram discussões sobre a melhor maneira de se criar e educar as crianças.

— Existem múltiplas formas de se criar filhos. Cada família deve escolher a que for mais próxima de seus valores, crenças e particularidades — opina a neurocientista Ligia Sena, doutora em Neurofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Ela é uma das precursoras da "criação com apego" em Santa Catarina. Conta que, quando engravidou de Clara, escolheu intuitivamente essa forma de cuidados. E só depois passou a estudar o assunto.

— Eu nem sabia da "criação com apego" quando senti a força da conexão, do amor e da vontade de cuidar da minha filha de uma forma mais presente — explica.

Ela defende que crianças criadas dessa maneira tendem a ser mais seguras, justamente por se sentirem sempre amparadas e por saberem que suas necessidades são prontamente atendidas. Mas a opinião não é unânime.

Crítica

A psiquiatra Maria Elisabeth do Valle, especialista em terapia de família, considera a "criação com apego" totalmente inadequada.

— Penso que o desenvolvimento da criança deve ser uma preparação para a vida, para enfrentar as perdas necessárias que acontecem no dia a dia. Este cuidado mais intenso deve ocorrer no primeiro mês de vida da criança, por ser um momento de conhecimento e reconhecimento mútuo da dupla mãe-bebê. Aos poucos, com a importante ajuda dos pais, esta dupla precisa iniciar o processo de individualização e separação para que se torne, no futuro, um indivíduo seguro e capaz.

A neurocientista Ligia Sena ressalta que a expressão criação com apego é apenas uma denominação nova para algo que é antigo, e que sempre esteve presente em muitas culturas sem que houvesse necessidade de nomear. Na opinião da pesquisadora, as pessoas estão cada vez mais envolvidas com suas necessidades individuais e com o acúmulo de bens materiais que lhe dão a (falsa) sensação de segurança.

— Saímos de casa cada vez mais cedo, voltamos cada vez mais tarde e não raro precisamos trabalhar também às noites e aos finais de semana. Nesse contexto, não sobra muito tempo para o cuidado ativo com as crianças, que logo precisam aprender a lidar sozinhas com seus anseios — explica.

A "criação com apego", afirma Ligia Sena, é o retorno a uma criação mais presencial, ativa, conectada, como era mais fácil de ser observada antes da frenética busca pela acumulação de bens materiais, enquanto os bens emocionais foram sendo deixados de lado. A psiquiatra Maria Elisabeth do Valle acredita que a "criação com apego" gera uma superproteção do filho, o que seria muito perigoso.

— A superproteção é tão ou mais danosa que o abandono, e provavelmente esta criança, se não tiver ego suficiente para colocar uma barreira, será extremamente insegura e incapaz de lidar com as adversidades da vida — ressalta.

Outro ponto criticado pela especialista em terapia de família, é o fato de a criança dormir rotineiramente na cama dos pais.

— O casal precisa ter sua intimidade preservada — afirma.

Notícias Relacionadas

Família 01/06/2012 | 17h55

Sete regras para criar os filhos felizes segundo a "criação com apego"

Tema virou destaque depois de ser capa da revista Times de 21 de maio

Comentar esta matéria Comentários (3)

Mica

Acho que o maior problema em relação "a dormir na cama do casal" é a dependencia que o próprio casal fica das cianças,da vontade em nao deixa-los cresecer,serem sempre os bebes deles. Dar amor, estar perto,noa significa se anular por conta dos filhos.E bom dar mimos qnd estao doentes,mas sempre..

03/06/2012 | 10h54 Denunciar

Iraci

Meus filhos têm 25 e 23 anos. Eu os tive muito cedo.Dei muito colo, amamentei por um bom tempo e quando estavam doentinhos, sempre dormiram comigo.Muitas pessoas me criticavam: diziam que ficariam mimados, mas se tornaram pessoas seguras e independentes.Toques,afagos criam conexão profunda

02/06/2012 | 20h00 Denunciar

Ligia Moreiras Sena

Bela matéria! Mas é equivocado afirmar que superproteção é tão ou mais prejudicial que abandono. A criação com apego não subentende superproteção. E nada é mais danoso às crianças que abandono e violência. Sobre a intimidade: criatividade! Ela não precisa estar restrita ao quarto e à cama do casal.

02/06/2012 | 18h24 Denunciar

clicRBS
Nova busca - outros