Terceirizado 17/03/2013 | 14h09

Tráfico de drogas no Morro do Horácio está sob novo comando

Atual gerente foi convidado pelo líder do tráfico local depois da prisão de quatro membros da família

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Tráfico de drogas no Morro do Horácio está sob novo comando Charles Guerra/Agencia RBS
Morro do Horácio, em Florianópolis Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

O tráfico de drogas no Morro do Horácio está com novo comando. Por causa do baque na estrutura familiar apontada como responsável pelo comércio de cocaína e de maconha na região, com a prisão de quatro parentes do líder local, Rodrigo de Oliveira, o Rodrigo da Pedra, os negócios ficaram praticamente sem administração.

O novo gerente teria assumido a compra e venda de drogas no domingo, dia 24 de fevereiro, a convite do próprio traficante, integrante do primeiro ministério do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), facção criminosa por trás das duas ondas de ataques a Santa Catarina.

Tiago Cordeiro, 23 anos, que atende pelo apelido Calcinha, teria passado a responder pelo comércio de drogas no Morro do Horácio, um dos mais rentáveis de Florianópolis.

De acordo com informações da Polícia Civil, em reunião no morro, às 17h do dia 24, parentes da mulher do líder Rodrigo, Simone Saturnino, explicaram detalhes do esquema e repassaram orientações ao novo comandante, que agora acumularia a nova função com a gerência do tráfico no Morro da Costeira, no Sul da Ilha.

No mesmo dia em que Rodrigo foi transferido da prisão de Criciúma para a Penitenciária Federal de Mossoró (RN), no dia 16 do mês passado, sua mulher e seu cunhado, Simone e Maykon Saturnino, fugiram do morro. Os irmãos, que vinham administrando os negócios, acabaram presos pela Polícia Civil na semana seguinte.

Nos dias em que ficou sem comando, o tráfico no Horácio teria passado a ser administrado por duas mulheres da família Saturnino, investigadas pela polícia e que até então apenas usufruíam da boa vida garantida pelos negócios escusos. Os soldados do tráfico, porém, não obedeciam às ordens recebidas. Talvez por causa da inexperiência das duas ou pela inabilidade delas em impor respeito entre os criminosos.

A única mulher que a base do tráfico local respeitava como comandante era Simone. Se havia alguma briga entre os soldados de Rodrigo e os de Fabrício da Rosa (traficante concorrente que tem uma boca fixa na mesma rua), Simone ia até a cadeia e falava com o marido, que mandava recado para os "guris ficarem de boa", conforme apontam informações coletadas nas investigações policiais.

Cordeiro, por sua vez, seria igualmente respeitado. Ele teria chegado ao morro por intermédio de Simone, com carta branca para trabalhar no lugar de Maykon Saturnino, gerente que acabara de ser preso.

Segundo a Civil, entres suas responsabilidades estariam os pagamentos, a compra, a separação e a distribuição da cocaína e da maconha no morro. Em troca, Calcinha ficaria com parte da droga.

Para a polícia, o homem apontado como novo gerente do Horácio também é respeitado por ser braço direito do compadre de Rodrigo, o narcotraficante Sérgio de Souza, o Neném da Costeira, líder do tráfico no morro do Sul da Ilha, detido na Penitenciária Federal de Campo Grande.

Souza e Cordeiro foram presos juntos no Paraguai, em 2008. No mesmo ano, o novo gerente do tráfico no Horácio foi investigado pelo caso conhecido como Crime do Cadeado, que teria sido ordenado por Souza.

Um morador da Costeira, envolvido com o comércio de drogas, foi torturado, carbonizado, teve os dedos decepados e a boca fechada com um cadeado. Na época, um adolescente acabou assumindo o assassinato.

CNH vencida e R$ 7 mil sem origem comprovada

Tiago Cordeiro foi abordado pela Polícia Militar no último sábado, dia 9, por volta das 22h. Estava em uma caminhonete importada, que foi apreendida porque ele estava com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida.

Calcinha levava com ele R$ 7 mil em dinheiro. Um boletim de ocorrência foi registrado na 2ª DP do Saco dos Limões porque ele não soube explicar a origem do dinheiro, que ficou recolhido na delegacia. Calcinha foi liberado.

Estrutura com obrigações, lucros e sigilo

O comércio de drogas no Morro do Horácio funciona com uma estrutura familiar. Todos os envolvidos têm suas obrigações, partilham os lucros e possuem compromisso de fidelidade e sigilo entre si. Algo quase inexistente em outros morros ou comunidades marcadas pela presença do tráfico.

Conforme investigação policial em andamento, muitos parentes participam do esquema com diferentes atribuições. Entre elas estão a de comprar, carregar, separar, batizar e vender a droga, pagar o fornecedor, os advogados, a equipe, os informantes e os moradores que guardam os entorpecentes, entre outras atividades.

Até agora foram presos temporariamente pela Polícia Civil, na Operação Salve Geral, a cunhada, o cunhado, a sogra e a mulher de Rodrigo de Oliveira. Todas as quatro prisões foram prorrogadas por mais 30 dias.

As ordens partiam sempre de Rodrigo, encarcerado desde 2006. E antes de ser presa, Simone Saturnino era quem dirigia os negócios pessoalmente.

Sempre que chegava um carregamento, Simone geralmente se hospedava no Hotel Maria do Mar, no Bairro João Paulo. A última vez foi em setembro de 2012. Costumava ficar lá durante três dias. Saía apenas para ir até uma casa no mesmo bairro, onde a carga ficava até ser transportada para o morro.

Nesse local, Simone batizava a cocaína em proporções de cinco para um. E separava o pó e a maconha em quantidades menores para venda. A droga entrava no morro de carro, por meio do então gerente, Maykon Saturnino, que subia o morro com cargas de 10 a 20 quilos de maconha.

Era Maykon, inclusive, quem levava a erva para ser vendida no Rio de Janeiro. Entregava a droga para o braço direito da irmã, um homem foragido já identificado pela polícia.

Simone também separava a droga na própria casa, no Horácio. Sempre com a segurança dos soldados do tráfico e bem assistida por um sistema de videomonitoramento.

A mulher de Rodrigo não tem, no entanto, perfil de matadora. Se não, já teria mandado apagar o desafeto do marido, Fabrício da Rosa, conforme informação da Polícia Civil.

Uma extensa rede de informantes a serviço

A família conta com uma extensa rede de informantes. Gente sempre de prontidão para avisar sobre as operações que vão acontecer no morro. Como aconteceu no sábado, 16 de fevereiro, quando um policial teria adiantado a Simone a operação armada pela Polícia Civil para prender os integrantes da facção por trás dos ataques a SC, isso 15 minutos antes dos policiais chegarem no morro com mandado de prisão temporária contra ela.

Quando a polícia chegou, os lençóis da cama de Simone estavam desarrumados. Ela tinha acabado de fugir, levando pouco mais do que duas mudas de roupa. Ficou uma noite com o irmão em uma casa, em São José. Maykon foi para um apartamento no João Paulo, onde foi detido.

Quatro dias depois de fugir do morro, a mulher de Rodrigo foi para Itajaí, onde foi presa dia 22 de fevereiro, uma sexta-feira. No domingo, Simone alugaria um helicóptero numa empresa de taxia éreo na BR-101. De lá, voaria até a cidade de Campos (RJ), onde iria para a capital fluminense de carro.

No Rio, ficaria hospedaria no Leme, bairro na Zona Sul carioca. O esquema estava pronto. Ela permanentemente trocava de celular, mas mesmo assim acabou caindo em uma interceptação telefônica.

Foi presa dois dias antes de fugir de Santa Catarina. Se conseguisse, dificilmente seria encontrada. Atualmente, suspeita de ordenar ataques a ônibus em Florianópolis, tráfico de drogas e outros crimes, está presa, assim como sua mãe e irmã

Da confecção de pipas ao crime

Um jeito diferente de lidar com as varetas de bambus transformou o menino Rodrigo de Oliveira, o Digo, então com 10 anos, no mais bem sucedido criador de pipas do Morro do Horácio. Era dele que toda a criançada comprava os artigos, reconhecidos como sendo os que voavam mais alto.

Quando menino, passava o tempo soltando e fazendo as pipas, subindo em uma pedra que fica logo abaixo de sua casa, perto do campinho de futebol, onde as crianças se reuniam para conversar e ver o morro acima. E é por causa desta pedra que a polícia deu a ele, depois de crescido e cooptado pelo crime, a alcunha de Rodrigo da Pedra.

Entre as crianças com quem brincava, uma menina três anos mais nova se tornaria, no futuro, mais do que amiga de infância. Simone Saturnino, neta de policial militar, nascida e criada no Horácio, assim como Rodrigo, apaixonou-se por ele na adolescência.

Os dois começaram a namorar há 11 anos. Os pais eram amigos e estão entre os primeiros moradoras do morro. Antes, a família de Rodrigo, que tem quatro irmãs e um irmão mais velho, morou nos morros do Tico-Tico e da Mariquinha, também no Maciço do Morro da Cruz.

O pipeiro mais famoso do Horácio estudou nos colégios Padre Anchieta e Hilda Vieira. Depois de repetir duas vezes de ano, se formou na 8a série aos 16 anos e largou os estudos.

Trabalhou como entregador de pizza, ajudante do pai no bar do avô, carregador de compras dos sacoleiros no Paraguai e de puxador de rede de arrasto na Barra da Lagoa. Ganhava peixe e levava para casa. Também vendeu cachorro-quente na lanchonete do pai de Simone.

Quando tinha entre 18 e 19 anos, ingressou no submundo do crime. Iniciou como aviãozinho, fazendo o papel de assistente de traficantes, e hoje é apontado pelas polícias Civil e Militar como líder do comércio de drogas no Horácio.

Alguns familiares de Rodrigo ainda moram no Horácio. Alguns parentes dele e de Simone se juntaram ao tráfico, conforme investigação da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic). A mãe de Rodrigo não fala com a nora há pelo menos um ano.

Simone e Rodrigo se viram pela última vez 20 dias antes de ele ser transferido da Penitenciária Sul, em Criciúma, para a Penitenciária Federal de Mossoró (RN), no último dia 16.

Contrapontos

Tiago Cordeiro
A advogada de Tiago Cordeiro, Iara Lúcia de Souza afirmou que seu cliente não tem nenhum envolvimento com o tráfico de drogas.

— Ainda mais no Horácio, que não frequenta e não tem nenhum contato com o pessoal local.

Confira o que diz o advogado que representa a família, Francisco Ferreira, sobre cada um dos casos:

Rodrigo de Oliveira e a ligação com o tráfico de drogas:

— Se é líder do tráfico ou não, a polícia terá que provar isso. A prisão dele em 2006 foi injusta. Eu não era advogado na época, mas fiz a revisão criminal. O próprio policial, quando o prendeu, disse apenas que estava levando o Rodrigo para averiguação. Não havia flagrante que pudesse incriminar ele e foi condenado por tráfico de drogas.

Sobre a prisão de Rodrigo, em 2008, dentro da própria cela no presídio de Tijucas, realizada pelo delegado da Deic, Claudio Monteiro. Conforme Monteiro, Rodrigo foi interceptado falando ao celular e na conversa estava comprando drogas para revender:

— O celular não foi pego com ele e só tinha a parte de trás. Ele dividia a cela com mais cinco. A gravação está sendo contestada pela defesa. Pedi que fosse feita a perícia, autorizada, mas que não foi realizada. Mesmo assim foi condenado porque a juíza que sentenciou não foi a mesma que fez a instrução do processo e que tinha autorizado a perícia. Estamos buscando no Superior Tribunal de Justiça a anulação dessa condenação porque a perícia não foi realizada.

Sobre a transferência de Rodrigo para Mossoró, no mês passado:

— É ilegal porque não obedeceu o que estabelece a lei que trata da inclusão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). A lei expressamente dispõe que, precedendo a decisão judicial de inclusão ou não do preso no RDD, tem de haver o contraditório (quando o advogado se manifesta nos autos dizendo que a transferência procede ou não e que os fundamentos do pedido de transferência são idôneos ou não), ou seja, o devido processo legal, que neste caso não aconteceu.

Sobre Simone e Maykon Saturnino:

— A prova que foi produzida no inquérito ainda deverá ser submetida à perícia, porque é fruto de interceptação telefônica, sendo que os trechos degravados são encimados por comentários feitos pela própria polícia, que tem interesse na condução da prova incriminatória. Até mesmo para justificar os respectivos pedidos de prisão temporária.

Sobre a mãe e irmã de Simone:

A prisão é injusta, absurda e não prova a vinculação delas com atividade ilícita. Entrarei com pedido de habeas corpus.

O esquema do tráfico no Horácio:

A disputa pelo morro
A boca de fumo fica perto das casas de Rodrigo e da família de Simone. O concorrente, Fabrício da Rosa, tem um ponto de venda fixo do outro lado da rua. Quando os soldados de Fabrício não estão vendendo, os de Rodrigo ocupam a boca. Embora também pertença ao PGC, Fabrício é desafeto da família. Ele está preso por envolvimento na execução da agente penitenciária Deise Alves, em outubro do ano passado.

O plantão
Funciona no esquema chamado "quarto de hora". São dois grupos de soldados que trabalham das 21h à meia-noite, da meia-noite às 3h e das 3h às 6h.

A tropa
São três homens de confiança autorizados a pegar grandes quantidades nos esconderijos e dividir em quantidades pequenas para venda na boca. São cerca de 10 soldados que ficam na boca vendendo. Alguns são adolescentes.

A droga
A droga está acabando e o novo gerente terá que comprar uma carga nos próximos dias. Na semana antes de fugir, Simone recebeu cinco quilos de maconha e mandou esconder na lixeira perto de sua casa. Naquele dia, o lixeiro passou mais cedo. Algum soldado terá que pagar o prejuízo. Antes de fugir, Simone estava para receber 100 quilos de maconha.

As grandes quantidades ficam enterradas no mato ou escondidas na casa de moradores, obrigados ou pagos para isso. As pequenas quantidades ficam escondidas na vala em frente a boca ou na lixeira perto do complexo de casas da família.

A droga é comprada uma ou duas vezes por mês de um fornecedor de Itajaí (que traz do Paraguai) ou do fornecedor do Morro da Costeira, também do Paraguai.

As armas
A família teria cinco metralhadoras, apelidadas de "macacas" e pistolas.

Uma espingarda calibre 12 e duas pistolas (uma .380 e outra 9mm de fabricação tcheca, restrita às forças policiais e ao Exército), além de duas caixas de munição, foram apreendidas pela Polícia Civil.

Comentar esta matéria Comentários (10)

Davi

Soldados do crime?? Soldado é um termo utilizado para falar de militares, de pessoas de bem que arriscam suas vidas para ajudar as outras pessoas; nunca deveriam utilizar essa palavra para tratar de 'marginal'. Mas... tinha que ser a RBS mesmo para dar enfase aos criminosos!

18/03/2013 | 11h17 Denunciar

suzana

Advogado que tem clientes com este perfil é outro safado que cuncumina com o tráfico. Agora traficante, criminoso, deliquente, matador e afins ter direito a advogado só mesmo em nosso Brasil varonil e que ainda tem na bandeira a ironica expressão ORDEM E PROGRESSO! Direitos humanos? onde? aqui?Piada

18/03/2013 | 10h46 Denunciar

ana

Fiquei impressionada pela riqueza de detalhes da matéria. E sabendo de tudo isso a polícia fez muito pouco, não é mesmo? A impressão que tenho é que realmente rola muita grana pra essa gente. Na verdade não estão nem aí. Somente quando o negócio fica muito na cara é que resolvem

18/03/2013 | 08h44 Denunciar

ana

Fiquei impressionada pela riqueza de detalhes da matéria. E sabendo de tudo isso a polícia fez muito pouco, não é mesmo? A impressão que tenho é que realmente rola muita grana pra essa gente. Na verdade não estão nem aí. Somente quando o negócio fica muito na cara é que resolvem "agir". Uma pena.

18/03/2013 | 08h43 Denunciar

Rodrigo

Que porcaria de matéria é essa? A RBS agora deu pra noticiar a vida social da vagabundagem? Primeiro foi botar em matéria de capa sobre a reclamação dos presos em Mossoró, agora faz matéria de uma forma que parece até notícia de coluna social ou de esportes. Acho que esse editor deve ser do PGC.

17/03/2013 | 21h25 Denunciar

pedro roberto evangelista

nossa,que beleza! os traficantes chefes foram promovidos por serem funcionários de carreira?ou chefe do tráfico é cargo de confiança???

17/03/2013 | 20h16 Denunciar

aldo miranda

Um traficante preso é substituído por outro em menos de cinco minutos. E assim é há dezenas de anos. Não adianta absolutamente nada prender traficantes. O tráfico só acaba quando acabarmos com o usuário, este cara de pau, moderninho e descolado que sustenta sozinho todo o sistema.

17/03/2013 | 19h56 Denunciar

Catarinense

A que ponto nossa sociedade chegou. Nao concordo que devemos tapar o sol com peneira, mas reconhecermos publicamente as "instituicoes/autoridades" do trafico, eh o fim do mundo.Sera que em breve teremos as faccoes oficialmente participando dar reunioes do governos?E a imprensa, continua uma vergonh

17/03/2013 | 19h02 Denunciar

Anderson

Reportagem desnecessária. Principalmente por quem repassou a notícia. "Conforme investigação policial em andamento". Com a investigação em andamento ser repassado tantas informações é lamentável.

17/03/2013 | 17h46 Denunciar

Antero

Depois dessa materia, cheguei a conclusão de que é vantajoso ser traficante no Brasil, onde familias inteiras trabalham unidas como se fosse um trabalho qualquer, ganhando fortunas em cima das desgraças de outros. A mãe Ainda tem audacia de querer arbeas corpus pra bandida inocente.

17/03/2013 | 15h47 Denunciar

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