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Esntrevista14/04/2012 | 16h12

Marcelo Rosenbaum aposta na brasilidade

Valorizar os elementos da cultura nacional e propor um design democrático e transformador são as propostas deste profissional que faz sucesso com o quadro Lar Doce Lar

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Marcelo Rosenbaum aposta na brasilidade Diorgenes Pandini/Agência RBS
Rosenbaum esteve em Joinville para apresentar a nova linha ecológica que leva sua assinatura, a Caruaru, que estará à venda na B+Store Foto: Diorgenes Pandini / Agência RBS

Apesar do sobrenome estrangeiro, é a brasilidade que se sobressai nas peças criadas por Marcelo Rosenbaum. Há mais de 20 anos à frente de seu escritório e comandando a sétima temporada do quadro Lar Doce Lar, no programa Caldeirão do Huck, da Globo, o paulista também dedica-se a projetos sociais e defende a democratização do design. Rosenbaum esteve novamente em Joinville, desta vez para apresentar a nova linha ecológica que leva sua assinatura, a Caruaru, que estará à venda na B+Store. Com seu jeito simpático e despretensioso, ele conversou com a equipe no dia da inauguração da loja joinvilense.

Como o design entrou na sua vida?
Marcelo Rosenbaum -
Na verdade, acho que o design não entrou na minha vida, ele já fazia parte dela. Meu pai é judeu, filho de um alemão e uma russa, e minha mãe é católica, com pai português e mãe italiana. Então isso é design também, design da construção de uma nação, de uma mistura que dá certo. Além disso, quando era pequeno, morava em um bairro meio afastado em Santo André, no ABC paulista, e lembro que havia uns terrenos vazios e via aquelas casas sendo construídas, o bairro se transformando. Nos fins de semana, entrava nessas obras e ficava imaginando quem moraria ali.

Como foi o início da sua carreira?
Rosenbaum -
Meu primeiro trabalho foi para uma loja de roupas de um shopping do ABC. A mãe de uma namorada minha na época tinha uma multimarcas, que vendia Forum, Triton, Zoomp, Varal, Anti-Choque. Ela comprou um espaço nesse shopping, eu pedi para ela me deixar fazer a obra e ela topou. Estava no primeiro ano de faculdade, daí para frente nunca mais parei. No final da faculdade, tinha cerca de dez clientes mensalmente, um volume grande, aí fui para a Alemanha trabalhar com o arquiteto Andreas Weber. Lá, tive a minha faculdade de verdade, trabalhei intensivamente com desenho e maquetes. Quando voltei para o Brasil, não consegui terminar a graduação em função da grande demanda de trabalho que surgiu, então, tranquei o curso e não me formei até hoje.

Onde busca inspiração para criar?
Rosenbaum -
A minha inspiração vem do todo, do conjunto, das pessoas, do dia a dia e do Brasil, com certeza. A gente se inspira nos elementos da brasilidade, que estão no imaginário do coletivo. Então, o trabalho é um conjunto de inspirações. É suor, mais do que inspiração, na verdade.

Você já esteve em Joinville para um quadro do Lar Doce Lar. Como é desenvolver sempre projetos novos depois de tantos anos à frente deste quadro do programa Caldeirão do Huck?
Rosenbaum -
A dona Abigail é uma mulher incrível, foi uma lição de vida para mim. Agora estamos na sétima temporada e costumo dizer que esse quadro é uma bênção. Sempre foi meu sonho trabalhar com a classe popular, com o desejo da classe popular, porque também não adianta a gente vir com referência de uma estética burguesa, europeia. Você vai hoje numa loja de móveis populares e vê o brilho, os gomos, isso não é à toa. A gente não sabe se vende mais porque é o que tem ou se é a demanda do gosto, mas esse é o meu grande desafio, entender esse comportamento. Entrar na casa popular brasileira através do Lar Doce Lar, que tem essa dimensão toda, mexer na vida das pessoas, é muita responsabilidade, mas também é muito gratificante.

Qual é a importância do programa para sua carreira?
Rosenbaum -
É gigante. Hoje, sou uma pessoa popular, sou reconhecido em qualquer esquina do País. Isso para o meu trabalho é muito importante, mas eu tento usar isso como um compromisso, com uma troca, porque acho que hoje a gente tem uma obrigação enquanto designer, enquanto profissional.  O design transcende um objeto, o design não precisa ser só um copo ou só um sofá, o design são as relações também, você desenhar uma nova vida por meio do belo, levar beleza, bem-estar. Nós criamos um projeto chamado A Gente Transforma e, com certeza, é o projeto da minha vida. Consegui desenvolvê-lo por causa do meu trabalho na TV, que possibilitou fazer contato com empresas, mobilizar jovens, estudantes. Usei essa oportunidade para o bem, porque acho muito pequeno pegar tudo isso e usar só para mim, o mundo precisa de outras coisas. Isso está muito claro para mim, não como ajuda, não como assistencialismo, e sim como trabalho, como troca. Acho que essa é a inovação do design, é onde vejo meu trabalho sendo útil.

Você sempre fala da importância em democratizar o design. Como investir em design popular e de qualidade ? Quais são seus projetos nessa área?
Rosenbaum -
A linha Caruaru, por exemplo, democratiza a informação, mas não é um móvel democratizado porque não vai caber na casa do povo brasileiro. Acho que democratizar também é levar educação. Como o Brasil é um País novo, as pessoas estão passando de classes e normalmente existe uma cultura de negar a classe anterior, só que, assim, negamos tradições culturais, não só a pobreza. No projeto A Gente Transforma, por exemplo, trabalhamos com isso mesmo que seja num produto. Quando fazemos uma linha Caruaru, democratizamos uma elite que consome só móveis que vêm de fora, que, de repente, não sabe da importância de uma feira de Caruaru, que é patrimônio da Unesco, mas que já perdeu toda a sua identidade. As pessoas não valorizam isso porque é genuíno deles e acho que esse trabalho, numa outra dimensão, tem esse potencial, tem essa força de educar, de democratizar uma informação, de despertar um novo olhar.

A proposta dessa linha é também resgatar um pouco dessa cultura, então?
Rosenbaum -
A proposta dessa linha é fazer um móvel bonito, um móvel com comportamento, seria pretensão se eu falar que é essa a intenção, mas acho que ele pode provocar isso, sim. Eu tive feedbacks do próprio prefeito de Caruaru, que me convidou para um camarote na festa junina de lá, pessoas de Caruaru que ficam felizes porque que exaltamos sua cultura. No Brasil, muita gente não sabe quem é J. Borges (J. Borges é um dos mestres da literatura de cordel e o xilogravurista brasileiro mais reconhecido do mundo), por exemplo, e quem conhece achava que ele estivesse morto. Então, ao incluir essa informação no cotidiano da decoração brasileira, de repente, podem passar a consumir a arte dele, a arte popular brasileira, que tem muito valor.

Qual é o seu conceito de morar bem?
Rosenbaum -
É tão simples e, ao mesmo tempo, complexo. O povo brasileiro não mora bem ainda, morar bem é ter um teto, ter uma casa sem bolor, com ventilação e ter cama para todo mundo. Eu não falo nem da privacidade, da individualidade, porque porta numa casa, no Brasil, é um item de luxo. Os projetos feitos pelo governo, como o Minha Casa, Minha Vida, isso ainda não é morar bem, as pessoas têm proteção, o status da alvenaria, do telhado, mas, em alguns lugares, elas não conseguem morar nas casas que constroem porque são tão quentes que acabam fazendo uma cabaninha do lado, de palha, para refrescar-se. Isso não é morar bem. Acho que morar bem deveria ser muito simples, ter uma casa confortável, com ventilação, com espaço, com segurança, e as pessoas não têm isso.

Como você analisa o design no Brasil?
Rosenbaum -
O Brasil é a bola da vez. Está todo mundo olhando para cá, não é mais só o futebol e o Carnaval, apesar de o futebol estar totalmente em voga por causa da Copa. Mas nós temos problema de educação, então acho que o design está ainda muito lá atrás, apesar de haver grandes nomes e ter um potencial gigante.

E qual é o conceito de design para você?
Rosenbaum -
Design, na minha opinião, é ser útil, é inovar. Design fala de uma época também. Se daqui uns bons anos isso aqui ficar coberto e alguma pessoa chegar, cavar e encontrar um móvel, ele vai falar de um período da história, das pessoas, de como elas viviam, como elas se comportavam. Isso que é o design,
ele traduz uma época.

O que não pode faltar na casa de Marcelo Rosenbaum?
Rosenbaum -
Ah, é clichê, mas não pode faltar amor.

Tem algum projeto para o futuro?
Rosenbaum -
O A Gente Transforma é o futuro, é um projeto gigante. Recentemente, estivemos em Várzea Queimada, no Piauí, e vamos expor os trabalhos desenvolvidos lá em Milão. Estou articulando todo o desdobramento desse projeto, o desenvolvimento dessa comunidade, que tem o menor índice de desenvolvimento humano do País. Quero criar um piloto para mostrar que se essa região, que fica no semiárido do Nordeste brasileiro, com difícil acesso, pode se desenvolver, qualquer lugar pode. Lá existem pessoas genuínas, com a tradição do saber fazer, mas o sonho dos jovens é ir embora porque eles não têm recursos, vivem do Bolsa-família e da aposentadoria, mas é uma comunidade com futuro, é só olhar. Acho que é nisso que precisamos apostar.

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