Realidade carcerária10/02/2013 | 14h45

Confira a realidade da Penitenciária São Pedro de Alcântara, de onde partem os ataques a SC

1.199 pessoas estavam na penitenciária na última terça-feira, divididas em quatro pavilhões

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Confira a realidade da Penitenciária São Pedro de Alcântara, de onde partem os ataques a SC Rafael Silva Rodrigues/Divulgação SPA
Corredores extensos, brancos e mudos, como em quase toda a penitenciária. Foto: Rafael Silva Rodrigues / Divulgação SPA
No auge da segunda onda de violência, que atingiu o Estado durante 10 dias e deu uma trégua na madrugada de sábado, o Diário Catarinense ingressou no local de onde partem as ordens para os ataques criminosos que aterrorizam a sociedade catarinense.

Na Penitenciária de São Pedro de Alcântara estão os líderes do Primeiro Grupo Catarinense (PGC), facção investigada pela autoria de pelo menos 150 atentados a profissionais e unidades de segurança, ônibus e prédios públicos e privados registrados em dois momentos, num período de 90 dias.

Ações que têm levado medo às ruas e ferido inocentes. Pela primeira vez desde sua suposta fundação, que teria ocorrido em 3 de março de 2003 (ou 3/3/03, como eles gostam de definir), a facção assume publicamente sua existência – símbolo, também, da falência do sistema penitenciário.

Um bloco, uma caneta e a identidade. Estes são os únicos objetos permitidos na visita à temida São Pedro de Alcântara. O detector de metais está desativado. A cadeia está aparentemente calma, bem diferente do clima nas ruas desde a retomada dos ataques, em 30 de janeiro. O juiz-corregedor do Tribunal de Justiça, Alexandre Takaschima, dispensa a escolta. Mostra-se confiante. O extenso corredor branco está mudo, assim como quase todo o restante da prisão. Quatro mulheres, de moletom e camiseta, conversam animadas. Elas acabaram de visitar os maridos.

Nos fundos do corredor, dois carrinhos ainda abrigam o almoço de algumas das 17 galerias distribuídas pelos quatro pavilhões, que concentravam nada menos do que 1.199 detentos na última terça-feira. Alguns pratos descobertos revelam a refeição, que nem de longe abre o apetite. O grupo que faz a vistoria é convidado para almoçar no refeitório dos agentes. Arroz, batata frita, ovo e banana. Falta coragem para comer a carne e até mesmo a salada.

Na padaria, ficaram prontas as fornadas de pão de trigo, aparentemente fresco. No pátio da cozinha industrial, onde só entra “preso regalia” (detento com bom comportamento autorizado a circular em áreas restritas), um seca o chão com rodo especial, de criação própria.

Do remédio para a alma ao pavilhão conhecido como quartel-general

Bem perto da cozinha, um apenado de cabelos brancos nos mostra o “remédio para a alma”, como é conhecida a biblioteca. Martha Medeiros, Cruz e Sousa, Lygia Fagundes Telles são a cura para muitos deles, dizem.

Relatos de maus-tratos, de comida estragada, de uma virose que se espalhou na unidade desde o domingo, da falta de colchões, de banho de sol, de remédio, de trabalho e de capacitação profissional são frequentes em São Pedro de Alcântara. Não poderia ser diferente neste dia de vistoria.

O juiz Takaschima demonstra gentileza. Conversa com todos e aperta a mão dos presos algemados. Ouve mais do que fala.

O Pavilhão 4, onde estão os de maior periculosidade e com penas mais altas, é o chamado quartel-general da facção que se intitula PGC. É ali que estão os líderes – homens que, segundo a Justiça, mandam viver e mandam matar.

Um leve cheiro de maconha sai de uma das celas. A dica para encontrar o homem apontado pela Secretaria de Segurança Pública como um dos articuladores da facção é simples: achar o nome dele escrito na lista de detentos, colada na porta. É o único da cela com os olhos azuis, enormes.

Atrás das grades da galeria M, ainda no Pavilhão 4, há um corredor sem janelas e com portas verdes, de ferro, trancadas. Na lista da cela 227, o nome procurado está escrito a caneta: Adílio Ferreira. Atrás da porta cumpre pena o homem denunciado pelo Ministério Público como um dos mandantes da execução da agente penitenciária Deise Alves, no ano passado.

A reportagem bate na porta e se apresenta. Vê salames, pão e sacolas pendurados na horizontal, à direita, e beliches dos dois lados. Os enormes e assustadores olhos azuis se aproximam da portinhola, único contato com a cela.

Inocência é alegada mesmo diante de uma extensa ficha policial

Percebe-se naquele contato um homem de olhar frio, condenado por homicídio qualificado, furto, tráfico e roubo. Nem parece dono deste ficha quando pede informalidade no trato e solicita ser chamado de “você”. E nem quando alega inocência na morte da agente Deise Alves, que, com base no inquérito, morreu no lugar do marido, o ex-diretor desta mesma penitenciária, Carlos Alves. Versão bem oposta à de Ferreira tem o Ministério Público Estadual e a Justiça catarinense, para quem Adílio Ferreira é, sim, mandante da morte covarde da servidora pública na noite de 26 de outubro.

Ferreira “é um dos homens do Primeiro Ministério do PGC, o qual decide, inclusive, quem deve morrer em razão de trabalhar contra os interesses da quadrilha”, conforme a denúncia do MP sobre a morte da agente, publicada em sete páginas. Continua o texto assinado por quatro promotores a respeito da investigação do crime: “O grupo é organizado e hierarquizado, sendo que as decisões mais importantes, a exemplo de matar pessoas, são decididas em colegiado”.

Ferreira, porém, não quer se intitular líder da facção, mas assume ser um de seus integrantes. E tenta justificar a existência do grupo que há 11 dias tira o sossego dos moradores de Santa Catarina.

– A facção existe por causa da brutalidade e injustiça dentro das cadeias.

E cita, numa tentativa de justificar suas ações criminosas, as agressões gravadas em vídeo no Presídio de Joinville em 28 de janeiro, que têm servido como argumento para a instalação do terror em pelo menos 26 cidades catarinenses. Ferreira não se intimida nem com a presença do diretor da cadeia, que observa seu discurso.

– Não vamos aceitar apanhar na cara. Isso (ataques) é resultado da humilhação que passamos aqui. E não é só aqui, é no Estado todo.

Intimida a possível transferência para uma prisão federal

O que parece intimidá-lo, porém, é a possibilidade de ser transferido para uma cadeia de segurança máxima – o que deve ocorrer nos próximos dias, segundo anúncio do governo estadual. Para ele, os presídios federais que aplicam o chamado Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) é um “parque de monstros”. Ferreira admite estar temeroso de ficar longe da família se for transferido.

Antes de a direção da penitenciária de São Pedro determinar o fim da jornada ao principal presídio do Estado, o criminoso faz questão de dizer o que está lendo.

E mostra o livro: Mentes perigosas - O psicopata mora ao lado.

Ali se encerrava a incursão da Justiça e do Diário Catarinense ao inferno de onde têm partido as ordens para incendiar Santa Catarina.

gabriela.rovai@diario.com.br

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